Cafeína e Noz de cola.

    A cafeína , 1,3,7-trimetil- 1H-purina- 2,6(3H,7H)-diona , fórmula C8H10N4O2 – 194.19 g.mol -1, é uma substância sólida (T.F. 236 °C) na condição ambiente. Possui solubilidade de 1g/46mL em água e 1g/66 mL em álcool.

    Os aminoácidos são precursores de várias biomoléculas especializadas que desempenham papéis biológicos essenciais, como os alcalóides. A cafeína é um alcalóide, identificado como 1,3,7-trimetilxantina, cuja estrutura contém um esqueleto de purina (Figura 1). Este alcalóide é encontrado em grande quantidade nas sementes de café (Coffee sp.) e nas folhas de chá verde (Camelia sinensis).

    O café tem sua origem histórica na Etiópia, por volta de 700 aC. Foi descoberto apos ser observado que as ovelhas que comiam do fruto desta planta não conseguiam dormir a noite.

    A cafeína está presente em mais de 60 espécies de plantas em todo o mundo. Uma dessas espécies é do gênero Cola. É uma árvore nativa da África equatorial, cujos frutos são conhecidos com o nome de Noz-de-cola ou Obi. Pertence a mesma família do Cacau.

   Possui um significado cultural na África; era utilizada em eventos sociais como mastigatório, pelo efeito estimulante, na comemoração de nascimentos, casamentos. No mundo, seu extrato ficou conhecido na formulação de refrigerantes do tipo Cola.

No Brasil, a escravidão colocou em contato as religiões de diferentes povos africanos, de várias comuni­dades e diversidade cultural, que acabaram por assimilar e trocar entre si elementos de suas culturas. Uma das vertentes culturais em que foi possível o resgate de suas raízes foi o candomblé, que possibilitou a união dos povos africanos, e isso caracteri­za a importância dessa religião como manifestação cultural afro-brasileira, resgatando a cultura e a dignidade e formando a identidade desses povos. Sua manifestação por meio de festas, danças, comidas e batuques de­monstram o orgulho de ter um passado e de possuir uma história.

A noz-de-cola (cola acuminata R. Br.), que tem uso sacro na África Ocidental, no Brasil, tem uso sagrado no candomblé, na qual é co­nhecida como obi (seu nome iorubá). Possui ação psicoativa gra­ças à ação dos alcaloides cafeína e teobromina que agem no sistema nervoso central, melhorando a fadiga, aclarando as ideias e aumentando o estado de vigília. No jogo de adivinha­ção (jogo de búzios), são utilizadas as nozes como mastigatório para, segundo os informantes, dar força às palavras.  Ela contém grande quantidade de cafeína e teobromina.

A cafeína também pode ser achada em outros produtos vegetais, particularmente no cacau (Theobroma cocoa), no guaraná (Paullinia cupana) e na erva-mate (Ilex paraguayensis).

É importante frisar que industrialmente a cafeína é adicionada de maneira artificial em refrigerantes e energéticos pelo efeito estimulante.

Embora uma parcela pequena da população consuma cafeína na forma de fármacos, como por ex. antigripais, grande parte deste alcalóide é ingerida na forma de bebidas. Uma xícara de café pode conter em média cerca de 80 mg de cafeína, enquanto uma  lata de coca-cola em torno de 34-41 mg. A cafeína é um dos alcalóides com atividade biológica mais ingerida no planeta. Apresenta ação farmacológica variada provocando, dentre outros efeitos, alterações no sistema nervoso central, sistema cardiovascular e homeostase de cálcio. Os efeitos da cafeína sobre o comportamento humano têm sido objeto de estudos a algumas décadas. Esses efeitos podem ser descritos como aumento da capacidade de alerta e redução da fadiga, com concomitante melhora no desempenho de atividades que requeiram maior vigilância.

Figura 1: Conteúdo de cafeína em alimentos populares, bebidas, refrigerantes e energéticos (Slavin & Joensen. Caffeine and sport performance. The Physician and Sports Medicine, 13:191-193, 1995).

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Publicado em: 3 de outubro de 2011 às 14:41

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